Impactos do coronavírus no MMA Nacional

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Kelvin Ramirez

07/07/2020

Que o MMA brasileiro sempre foi um celeiro de grandes talentos para o esporte isso não há dúvidas. Desde os primórdios do esporte falamos de brasileiros envolvidos nas artes marciais, seja externamente ou internamente nos cages e tatames ao redor do mundo. Mas ai perguntamos, somos uma potência nessa modalidade?

Para boa parte talvez a resposta seja positiva para esse questionamento, mas não temos como negar que ainda não atingimos o potencial que poderíamos chegar. Ao longo dos anos o cenário do MMA nacional cresceu, caiu, se reinventou e atualmente talvez vive uma das piores fases.

Enquanto alguns esportes tentam encontrar maneiras de retomar as atividades durante a pandemia, as artes marciais mistas no país continuam congeladas. Atletas e professores sem quaisquer tipo de amparo e ainda sem saber quando poderão lutar novamente, e quando falo em lutar não significa que seja literalmente apenas, mas no dia-dia, em busca de melhorar suas condições físicas e psicológicas para poderem garantir o sustento, muito além de que muitos acham que apenas a fama e o sustento através de um cartel ‘intocável’.

Acostumados a lerem ou ouvirem de salários astronômicos no mundo das lutas, o cenário real de um atleta de MMA no Brasil é muito diferente. Falta apoio, falta investimento e não é de hoje. As academias também estão muito distante de um nível muitas vezes básico para um atleta de alto nível, e não é atoa que quando surge uma oportunidade os atletas não deixam para depois e vão para academias no exterior, como nos Estados Unidos que sabemos que não tem somente uma boa estrutura e sim material humano para desenvolver atletas muito além da parte técnica, a parte de condicionamento físico e talvez a principal, que é a mental.

Para chegarmos em um nível de progresso é necessário um alinhamento, entre eventos, lutadores e patrocinadores. Infelizmente sabemos das dificuldades nessa cadeia, e a falta de apoio prejudica em massa o desenvolvimento, como conta o lutador Mairon Santos Alves, atleta da Paraná Vale Tudo.

“No Brasil é um lugar onde os organizadores fazem os eventos de uma forma muito esforçada e na maioria das vezes muito sacrificantes, pois é uma quantia em dinheiro para investir na estrutura do evento, atletas, lugar para platéia e etc, e em 90% desses casos o dinheiro que o evento ganha não é lucro”, relatou Mairon para o Tudo Sobre MMA.

O mercado obscuro do MMA nacional escancara as dificuldades que acarretam de forma incisiva o crescimento do esporte no Brasil nos últimos anos. Lutadores que não conseguem prezar nos treinamentos e muitas vezes abdicam das academias para trabalhos extras, ou melhor para um trabalho paralelo, onde o esporte é levado de forma secundária e muitas vezes acabam sendo deixados de lado.

Com várias cidades em estados críticos em decorrência do novo coronavírus, eventos proibidos e academias fechadas acabam sendo a “última pá de terra” em algumas equipes. Convivendo com essas dificuldades, Mairon ainda contou para nossa equipe o panorama atual das equipes de MMA no país.

“A pandemia afetou bastante de forma negativa o cenário do MMA nacional. As academias também estão sofrendo muito, pois só podem treinar aqueles que tem luta marcada, o que é uma coisa que está difícil, pois poucos atletas estão com lutas marcadas”, falou Mairon que está invicto na carreira com 10 vitórias e não luta desde março desse ano.

A falta de apoio e investimentos atinge diretamente líderes de eventos, o pagamento para atletas arriscarem tudo em um octógono muitas vezes acaba sendo simbólico e muitos acabam lutando por alguns ingressos, sim, isso mesmo, não está lendo errado. Estamos falando de um esporte de combate onde atletas arriscam sua integridade física em troca de ingressos. Líder da Paraná Vale Tudo, Gilliard Paraná revela cenário ruim antes mesmo da pandemia e ainda fala das consequências negativas que a paralisação do esporte no país pode causar.

“Os eventos a maioria já estavam pagando os atletas com ingressos e a estrutura não sendo adequada. O cenário com certeza deverá demorar para se recuperar e consequentemente as academias também, muitas estão fechando e eu creio que devemos perder metade das academias no Brasil de luta, pois muitas são de pessoas que pagam aluguel e que dependem de alunos com pagamentos mensais para manter a academia e a grande maioria não tá conseguindo arcar com esses custos”, disse Gilliard Paraná.

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Gilliard Paraná é conhecido como um dos pioneiros do MMA feminino no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Também sentindo o efeito negativo, a perspectiva para Diego Lima, líder da Chute Boxe (SP), é de recomeço nos próximos meses. Vislumbrando as dificuldades de treinadores e lutadores, Diego pondera a mudança na rotina de treinamento dos atletas e o “vazio” das academias atualmente.

“Aquelas academias que tinham 35, 40 atletas profissionais para poder voltar aos treinos tiveram que reduzir para 6,8 atletas. É muito complicado, acaba desanimando tanto os lutadores, como eventos e empresários. E como sempre, os mais afetados são os atletas. É muito triste, acredito que todo o ano será assim, por mais que voltem os eventos serão de portões fechados, ou seja as bolsas irão voltar menores ainda”, afirma Diego Lima.

Outro ponto destacado por Diego é a redução de atletas, academias e eventos em um futuro próximo.

“Vai ser muito difícil passar por isso, no meio do caminho muitos lutadores talvez desistam da sua profissão e acredito que muitos eventos deixem de fazer, além das academias que muitas delas deverão fechar as portas”, analisa o líder da Chute Boxe SP.

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Diego Lima lidera uma das academias mais renomadas do país (Foto: Arquivo Pessoal)

Nos últimos dias, o Shooto Brasil anunciou um evento para o dia 26 de julho, na Upper Arena no Rio de Janeiro. A “Edição Solidariedade” contará com 10 lutas e duas disputas de cinturão, do peso-leve e do peso super-leve. O evento terá transmissão do canal Combate e acontecerá com portões fechados.

Recomeço! Assim devemos presumir o futuro do MMA Nacional. Com certeza material humano não faltará. Sabemos das dificuldades do passado e supomos as que estão por vir, mas não podemos abaixar a cabeça e devemos acreditar em uma reestruturação e confiar que dias melhores virão.

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